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id da página: 3586 Orígenes Tratado da Oração Orígenes

Orígenes Interpretação do Pai Nosso

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Extrato de Daniel Genet. L’Enseignement d’Origène sur la prière

A exegese que Orígenes faz da Oração Dominical nos fornecerá informações úteis sobre sua noção de oração. Ela nos mostrará que sentido o nosso pensador deu aos simples pedidos de Cristo e, consequentemente, poderemos ter uma ideia mais clara do que para ele deveria ser a verdadeira oração cristã.

Vamos abordar um por um os pedidos da Oração Dominical, nos contentando em indicar o que caracteriza cada um deles para Orígenes.

Pai nosso que estais nos céus. — Orígenes observa que apenas os homens da Nova Aliança chamam Deus de seu Pai. Cristo foi o primeiro a dar-lhe esse nome na oração. Portanto, devemos apressar-nos a dirigir-nos a Deus nesses termos se não quisermos sobrecarregar nossos pecados com o crime de impiedade contra ele. Todo homem que não peca, pelo simples fato de levar uma vida reta, clama aos céus: Pai nosso que estais nos céus.

Santificado seja o teu nome. — O nome é a palavra que serve para designar o caráter próprio daquele que o possui. O nome de Deus será, portanto, a expressão adequada para designar sua essência particular. É essa essência particular que devemos aprender a distinguir cuidadosamente, e assim santificaremos o nome de Deus. Pelo contrário, aquele que associa ao conceito de Deus coisas que não convêm, pronuncia o nome de Deus em vão.

Venha a nós o teu reino. — O reino de Deus não se estabelecerá aqui na terra em meio a relâmpagos e trovões. Esse reino está dentro de nós. Ele consiste no estado feliz da razão e dos pensamentos sábios. Pelo contrário, aquele que dá acesso ao pecado em sua alma se encontra sob a tirania do príncipe das trevas. A vinda do reino em nós não é completa desde a nossa primeira oração, essa vinda é apenas progressiva; é a derrota sucessiva de todos os inimigos de nossa natureza espiritual. Mas, no entanto, já possuímos os benefícios do novo nascimento e da ressurreição.

Seja feita a tua vontade assim na terra como no céu. — Por meio disso, pedimos a Deus que nos torne semelhantes aos habitantes do céu que cumprem perfeitamente a sua vontade. Mas aqui Orígenes se corrige: no céu não há apenas seres bons, querubins e anjos, no céu também há os "espíritos do mal" (Efésios 6:12). Portanto, a vontade de Deus não é observada por todos lá e pedir que ela seja assim na terra não seria dar cidadania aos espíritos impuros das regiões celestes. Orígenes resolve a questão sustentando a tese um pouco paradoxal: "Os espíritos do mal que habitam os céus não são espíritos celestes". De fato, um homem que está na terra, mas que aspira com todo o seu ser à vida de cima, que se apega apenas aos bens eternos, já pertence ao céu, não por sua posição física, mas pela direção de sua vida. Da mesma forma, os espíritos do mal que se encontram nas regiões celestes têm, na realidade, sua pátria na terra porque todos os seus pensamentos estão voltados para as coisas daqui de baixo, perecíveis e vis.

Finalmente, Cristo não quis dizer que aqueles que estão em um lugar da terra devem orar para serem semelhantes àqueles que estão em um lugar do céu, mas ele tem um único objetivo: que tudo o que é terrestre, ou seja, mau, se torne celeste, ou seja, bom. É preciso que a terra não seja mais terra, mas seja finalmente transformada em céu.

O pão nosso de cada dia nos dai hoje. — Orígenes descarta imediatamente o pedido de pão material; ele nem se detém nisso, é um absurdo. É preciso pedir a Deus o pão espiritual que não é o mesmo para os perfeitos e para os fracos. Esse pão é substancial e Orígenes aproveita para dar uma exposição metafísica sobre as ideias de forma e de substancia. Compartilhamos esse alimento da alma em comum com os anjos. Pedimos a Deus para nos dar esse pão hoje, ou seja, na vida presente, após a qual poderão vir outros períodos de tempo onde encontrarão graça até mesmo aqueles que blasfemaram contra o Espírito Santo.

Perdoa-nos as nossas ofensas assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido. — Todos nós temos uma multidão de deveres particulares e gerais e nunca os cumprimos de forma satisfatória. Assim, os deveres que não cumprimos permanecem como tantas acusações que poderão se transformar em castigos merecidos diante do tribunal de Deus. Mas se somos todos devedores, também todos temos devedores. Se alguns não querem pagar as dívidas que contraíram conosco, devemos tratá-los com brandura, lembrando-nos que também nós não nos quitamos de todas as nossas obrigações. Se o devedor estiver arrependido, perdoa-o, se ele não estiver, perdoa-o também, pois seu endurecimento só faz mal a ele mesmo.

Todos nós temos o poder de perdoar os pecados, no entanto, aquele que foi inspirado pelo Espírito Santo, os apóstolos, os padres podem no lugar de Deus perdoar os pecados ou retê-los, mas não se deve, como alguns fazem, arrogar-se o direito de perdoar os pecados muito graves.

Não nos deixes cair em tentação. — Toda a vida terrestre é uma longa sequência de tentações. Como pode ser que Deus "induza" alguém em tentação? Parece absurdo que um Deus bom tenha prazer em fazer suas criaturas caírem no pecado. Orígenes nos dará sua solução: Deus nos induz em tentação no sentido de que ele nos abandona às nossas más inclinações para que, finalmente, fartos de prazeres malsãos, sejamos tomados de repulsa e voltemos a ser puros. Assim, a tentação nos livra radicalmente do pecado.

Além disso, a tentação nos permite nos conhecer melhor, saber qual é a nossa força de resistência ao pecado e quais são os maus desejos do nosso coração.

Mas livra-nos do mal. — Deus nos livra do mal, não no sentido de que não somos mais tentados, pois isso é impossível, mas no sentido de que, com sua ajuda, não sucumbimos à tentação.